segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Hipóteses para minha perda de memória e micos que resultam dela

Os micos me acompanham, aonde quer que eu vá...
Eu desde pequena sempre tive aquela memória fotográfica, nunca me esquecia de um rosto. Podia ver uma pessoa que estudei junto quando era criança e me lembraria dela, 13 anos depois. Em contrapartida nunca fui boa para lembrar de nomes e aniversários. Assim eu era.
Depois que me mudei pra Noruega, tudo mudou, até isso!
De repente comecei a ter dificuldades de me lembrar do rosto das pessoas. Não sei o por quê. Às vezes tenho medo de ter desenvolvido alguma doença que leva à perda de memória. Penso isso quando meu lado neurótico vem à tona. Depois relaxo e encontro diversas teorias para justificar essa transformação.
Pode ser que, com a idade ( meus quase 25 anos ) minha visão tenha se deteriorado e por isso eu não me lembre dos rostos, por não enxergá-los bem. Mas aí eu argumento mentalmente para mim mesma que não pode ser essa hipótese, já que eu continuo lendo sem problemas, não caio em buracos na rua e etc.
Hipótese número 2 é que aqui todo mundo é parecido. É verdade. No início todo mundo era lindo e exótico a meus olhos, mas depois de quase 2 anos morando aqui, caiu a ficha. Eles são todos branquíssimos, loiros, e a variação que encontramos são os ruivos ou as meninas que pintam o cabelo de castanho/preto. Claro que tem os imigrantes e filhos de imigrantes mas estou falando dos noruegueses puros. Tenho a maior dificuldade de lembrar quem é quem. Além disso, depois dos 30 todos têm pé-de-galinha. E o tipo físico também é parecido. São altos e fortes ( homens e mulheres), e com o corpo bem torneado por muitos anos de esqui. As roupas/estilos não variam muito, já que um dos traços culturais daqui é que ninguém gosta de quem quer aparecer, ser diferente dos demais. Se essa hipótese for a causa do problema, então minha perda de memória fotográfica não é permanente, fico até aliviada.
Hipótese número 3 é que aqui as pessoas não costumam olhar nos óio umas das outra. Aí eu sem aquele olhu nu olhu que eu tô acostumada no Brasil, não consigo escanear a pessoa todinha, de cima pra baixo começando pelos olhos e terminando no dedinho do pé. Sem poder usar meu scanner, não consigo ligar o botão da memória visual no meu cérebro brasileiro. Se essa hipótese for verdadeira, então meu problema de falta de memória é apenas na Noruega ( ufa!) mas meu cérebro terá que desenvolver outros mecanismos de reconhecimento, senão eu nunca vou poder exercer minha tão sonhada profissão de detetive.

Todas essas teorias vieram da minha cachola porque eu já fiquei em casa situação cons-tran-ge-do-ra por aqui!

Uma delas, a pior de todas, foi quando eu convidei meus alunos de português para uma noite de cinema brasileiro. Ninguém confirmou se vinha, e eu fui sozinha toda animada para o filme. Antes da exibição, estava eu fazendo uma social com umas pessoas que também aguardavam pelo filme, inclusive um brasileiro com seu esposo norueguês, que estava interessado em aprender português. Uma moça norueguesa chegou e sentou perto de nós, disse boa noite e eu respondi educadamente e continuei minha conversa. Estava tentando ganhar um aluno novo, claro! Falava das minhas aulas, de onde trabalho e etc. O possível aluno me perguntava algumas coisas, por exemplo a motivação dos noruegueses a aprender português. Aí eu citei 3 dos meus alunos, que têm casa de praia no nordeste do Brasil. Foi aí que a moça norueguesa que tinha dado boa noite e ficado calada resolveu intervir me deixando muito, mas muito sem graça. Disse: - Não está me reconhecendo Marcela???!!!
E eu viro para ela com aquela cara de surpresa, com um sorriso contido de vergonha, uma cara de completa idiota e digo: - Fulana!!! ( Ufa, pelo menos o nome da mulher eu lembrei na hora!) E corri para o seu lado, a abracei e disse que estava com a cabeça na lua! E então as pessoas que conversavam comigo provavelmente acharam que eu era doente mental, louca, ou no mínimo esquisita! E a querida Fulana ainda completou: - Eu não ia falar nada, mas como você estava falando de mim eu tive que dizer algo. E depois disso as coisas correram bem, assisti o filme ao lado dela e torci para nunca mais ver aquelas 2 pessoas que são testemunhas do maior mico que paguei por aqui.

Agora vocês, queridos leitores, me digam... Me expliquem... o porquê... dessa mulher não ter puxado assunto comigo logo assim que chegou... o porque dela ficar ali fingindo que não nos conhecíamos mesmo depois de eu tê-la convidado para o cinema, se fingindo de morta, e de repente, depois de 15 minutos ressuscitar? Se eu sou louca e sem memória, o que eu até posso concordar que as pessoas pensem pois assim me senti naquele momento, o que ela é? Porque timidez tem limite... Pra que vale a timidez do tímido se vai deixar ele e todos na maior situação constrangedora? Eu fico imaginando ela ali, sofrendo, no maior conflito mental em que pensava: Agora eu falo com ela. Ai, não! O momento passou. Vou interrompe-los agora, caramba, de novo, não consegui. Será que ela me convidou e não queria que eu viesse, que foi por educação e ela pensou que eu não vinha? Será que no Brasil as pessoas não conversam com os alunos quando os convidam para o cinema? Será que ela é louca? Será que ela não gosta mim? Será que é melhor eu ir embora? Será que devo desistir das aulas com ela?
Eu imagino quantas perguntas se passaram naquela cabecinha loirinha. E eu ali, socializando, falando do meu trabalho, achando que ninguém estava me observando, sendo EU MESMA. Cara, até hoje tenho tanta vergonha desse dia, e por isso realmente gostaria de entender o que está acontecendo com a minha memória.

16 comentários:

  1. AHAHAHAHAH morri de rir. Meu eu tb sou assim, então fico feliz de saber q eu não sou a unica desmemorizada na Noruega. Cara vc não tem noção da quantidade de pessoas q eu me apresento e eles falam: Mas a gente já se conhece, lembra aquele dia?" ai eu mando um "AHHHHhh é mesmo me desculpa" mas na real nunca lembro. Tem uma coitada aqui q já me disse q eu me apresentei pra ela umas 5 vezes antes de começar a reconhece-la... Eu voto na hipótese de q todo mundo é igual mesmo e é foda. Ou de repente temos um limite de memorização de rostos e já usamos tudo no Brasil ehehhehehhe

    BJS

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    1. Caramba hein Adriana, será que já não nos conhecemos e não estamos lembrando uma da outra? Rsrsrs

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Belo espaço. Inteligente e criativo.
    Estarei por aqui sempre para buscar informações e me atualizar.
    Sua comunicação flui facilmente deixando-nos à vontade.
    Gostei muito do estilo do blog e vou trabalhar para o meu, que está recem inaugurado, ter a mesma qualidade.
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    Sempre que puder estarei participando com sugestões, caso entenda serem pertinentes e construtivas.
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    Forte abraço.
    agamenonplait.blogspot.com

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    1. Obrigada! Seus comentários e sugestões serão bem-vindas! Abraço, Marcela.

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  4. Onde voce trabalha, Marcela? Meu esposo esta interessado
    em aulas de portugues...beijos.

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  5. Oi Fabiana, em qual parte da Noruega vocês moram? Se quiser me passa o e-mail dele e eu mando uma proposta de aulas. Obrigada.

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  6. hhahahahaha!!!
    Isso também me acontece, mooooorro de vergonha!Acredito que é mesmo porque são todos iguais, tipo chinês rsrs
    bjooo

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  7. :D
    eles sao iguaizinhos mesmo... a mesma cor, os mesmos casacos....
    nunca que eu vou encontrar alguem com um casaco cor de rosa, ou roxo aqui pelas minhas bandas!
    So descordo do "corpo bem torneado", pelo menos por aqui rolam os dois extremos, ou corpo atletiquezimo, ou baleias e baleios (ja que por aqui usa se carro pra TUDO)
    Mas sobre eles serem iguais è so dar uma olhada nos catalogos de roupas. è tudo cinza, preto, e quando voce è muito ousada, tem a famosa cor "gammel rosa"... e pronto cabou :(
    Tambem ja fui apresentada MIL vezes as mesmas pessoas. minha estrategia e ir dando oi pra todo mundo.

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    1. É verdade Glenda, os mesmos casacos!!! Em Oslo não é muito diferente não. Eles usam muito um verde apagado por aqui, tipo verde exército desbotado.
      Tem uns acima do peso também, claro... Mas gordão gordão mesmo não tem muito não.

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  8. Eu ri demais lendo seu texto, Marcela! Eu estive na Noruega a um mês atrás e sofri do mesmo mal. Eu me apresentava várias vezes para a mesma pessoa, e ela dizia "Já nos conhecemos no lugar tal, lembra?", e eu, super sem graça, "Desculpa, eu realmente não lembrei". Que bom saber que não fui a única com esse tipo de problemas! Haha

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    1. Caramba Larissa, daqui a pouco os noruegueses vão achar que todos nós brasileiros fumamos maconha kkkkkk. Eu não fumo e sou assim, imagine se fumasse! Bjs

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  9. Boa noite, é o meu primeiro comentário, rs...

    Eu já tive mais de cinco mil alunos. Não ligo se esquecer a fisionomia de quase todos.

    Liga não, pois vai piorar depois dos quarenta.

    Enaldo.

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    1. Oi Enaldo, seja bem-vindo ao meu pequeno espaço! Rs

      Que legal, você também é professor? De quê?

      Abraços e volte sempre!

      Marcela.

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