Quando eu era menina, costumava ir à casa da Juliana para brincar. Às vezes dormia lá, e sempre fui bem vinda pela família dela. Minha mãe sempre dizia: Se comporte na casa dos outros. Lave seu prato depois de comer, elogie a comida, fale baixo para não incomodar ninguém. Agradeça por tudo quando for embora. Se alguém te oferecer algo diga não e só aceite se a pessoa insistir. Se alguém te oferecer sorvete na praia, não escolha os mais caros.
Levou um tempo para cair a ficha, mas eu sou como uma visita aqui na Noruega. Até o dia em que eu falar norueguês fluentemente e ser radicada aqui, sou apenas mais um visitante. Portanto, as mesmas regras de etiqueta que minha mãezinha me ensinou para quando fosse dormir fora são válidas para mim agora que moro fora do Brasil.
Não falar alto. Ta aí uma coisa difícil para mim, ainda mais quando me empolgo com algum assunto. Ainda mais quando estou falando minha língua que amo tanto. Mas tá aí um erro cometido por muitos estrangeiros aqui. Não percebem que são visita. Que para os donos da casa, ouvir alguém berrando uma língua que eles não entendem, nada mais é do que barulho. Incomoda.
Quando eu comia na casa da Juliana, eu não comparava a comida da casa dela com a da minha. Eu não constrangia a família dela dizendo que a comida da minha avó era melhor. Esse comentário eu poderia até fazer, mas na minha casa, para a minha família. E hoje, refletindo, me lembro de quantas vezes eu disse à noruegueses que a carne do Brasil era mil vezes melhor, que no Brasil temos sucos naturais, muita variedade disso e daquilo, etc e tal. Nossa, demorou mas a ficha caiu, eu estava esse tempo todo sendo grosseira. Sentir saudades da comida brasileira é normal, mas eu deveria ter deixado pra comentar essas coisas em casa, não na casa deles. Acho que, se a família da Juliana fosse mal educada, e se eu começasse a comparar como era na minha casa com a casa dela, eles teriam me dito: Então volte para lá. Ainda bem que não aconteceu assim.
Talvez a casa da Jú não fosse tão limpa como a minha. Infelizmente eu iria reparar isso, apesar deles terem aberto a porta da casa/intimidade deles para eu entrar, terem me recebido, ainda assim eu iria reparar nisso, é humano. Mas jamais eu iria dizer isso para a Juliana. Esse tipo de comentário, até uma criança tem discernimento para não fazer. Porque seria diferente com essa longa visita que estou fazendo aqui? Ao invés disso, já que estou morando, posso ajudar nas tarefas da casa. Coisa que minha mãe me ensinou também. "Se for passar férias com alguém, ajude. Não se torne um peso para os outros carregarem". Pois é. Deus me livre de me tornar um peso para a sociedade carregar. Prefiro ter orgulho próprio e trabalhar.
Quando eu ia para a casa da Juliana, eu ia lá para brincar com ela. Se a família dela fosse simpática e conversasse comigo era legal, se eles sorrissem eu sorriria de volta. Mas independentemente do comportamento deles, eu tinha que cumprimentar quando chegasse e quando fosse embora. Engraçado mas quando me mudei pra Noruega, por causa do H.P. eu esperava que todos fossem simpáticos e puxassem assunto comigo, quisessem saber da minha casa, do meu país, não é mesmo? Como posso reclamar dos noruegueses se eu vim aqui para brincar com o H.P.? kkkkkk
Aqui, na casa dele, que também é a minha casa agora, eu tiro os sapatos antes de entrar, coisa que eu não fazia na casa em que eu nasci. Cada lugar com seus costumes, cada casa com suas regras, cada família com seus membros. Uns são simpáticos, outros não, uns educados, outros pouco, uns curiosos sobre você, mas nem todos, uns tem paciência com crianças ( e nós, novatos na terra deles somos de certa forma crianças), outros não, uns generosos, outros mesquinhos, uns gostam de receber visita, outros gostam de preservar sua privacidade do olhar do outro, especialmente os que vem de fora, pois trazem um outro ponto de vista e comparam tudo- podendo incomodar profundamente quem não está disposto a ouvir que para aquele visitante, tudo na casa onde ele nasceu é melhor.
